Metodologia

“Tal como os carros que correm para o precipício,

a marcha destas vidas (predelinquentes) é sempre previsível.

Ninguém se torna delinquente por obra do acaso”.

Pedro Strecht (2003)

 

Introdução:

Desde o início da intervenção, em 1994, nas ruas de Setúbal, com jovens em situação de risco de exclusão social, foi evidente para os técnicos envolvidos, que qualquer processo de acompanhamento teria de passar pela adoção de metodologias não usuais, por vezes pouco ortodoxas, quase totalmente desconhecidas na área de intervenção socioeducativa com jovens com problemas de comportamento social.

Percebeu-se que a intervenção teria de adotar a articulação de um conjunto de metodologias com vista à motivação da população alvo e à sua adesão ao apoio que lhe era proposto.

Tal como outrora, a dificuldade de intervenção nos nossos dias deve-se à resistência dos próprios jovens a serem ajudados / acompanhados, visto que foram inicialmente alvo de um processo de socialização não adequado e posteriormente de uma intervenção não atempada.

Com isto, chegam às instituições de acolhimento sem as competências pessoais e sociais básicas para viverem em sociedade, para se tornarem autónomos e responsáveis, com idades já avançadas para viverem um processo de socialização tardio de muitos anos.

Sem compreenderem a sua própria situação de fragilidade social, sem perceberem as razões das suas dificuldades pessoais e sem aceitarem as limitações do seu enquadramento familiar, revoltam-se então contra a sociedade, contra os serviços de justiça e de segurança social que os separa das suas famílias biológicas ou das ruas e os coloca nas instituições de proteção, virando-se então contra as mesmas, exercendo sobre os equipamentos, sobre os técnicos e pessoal uma violência por vezes difícil de controlar, de que são portadores e cujas origens desconhecem.

Incapazes de ouvir, de ver e de pensar sobre os problemas que os afetam, virados para o imediatismo, para o facilitismo, para o desregramento, para a utilização da força, para a aventura sem noção das consequências, para a afirmação de si próprios a qualquer preço, negam obstinadamente quer os objetivos e valores das instituições, recusam a atenção dos técnicos das mesmas, resistindo à mudança.

Por estas razões, o trabalho com estes jovens deverá basear-se na adopção de processos de intervenção e acompanhamento inovadores, com vista a surpreender os jovens e simultaneamente motivá-los para o acompanhamento que urge que aceitem para sua própria proteção.

Tal, pressupõe a oferta de actividades desafiantes e de processos de reflexão que os convidem a uma participação ativa, à tomada de decisões, tornando-os alvo e centro de todo o processo de intervenção.

Por este motivo, a “Questão de Equilíbrio” tenta adotar a articulação de várias metodologias de intervenção muito próximas dos estudos etnometodológicos e da investigação-ação.

A proximidade ou simultaneidade de funções do técnico e do investigador, a análise próxima e continuada de situações de vida dos jovens acompanhados, o papel reconhecido aos mesmos para assumirem a responsabilidade de refletirem sobre as suas condutas e opções, mostram uma evidente opção pela investigação naturalista e qualitativa, entendendo-se esta última como “uma categoria de desenhos de investigação que extraem descrições a partir de observações que adotam a forma de questionários, narrações, notas de campo, gravações, transcrições áudio e vídeo, registos escritos de todo o tipo, fotografias e artefactos”, na perspectiva de Le Compte (1995). Por outro lado, a perspectiva holística pretende estar bem presente, o que confere a esta intervenção um campo privilegiado para a investigação naturalista com as características definidas por Miles y Huberman, citados por Gregório Rodriguez (1996), onde se verifica “uma proximidade do investigador ao terreno de intervenção, onde este tem como papel alcançar uma visão holística, sistémica, ampla, integrada, do contexto e do objeto de estudo, através da análise da sua lógica, das suas normas explícitas e implícita, da sua organização” o que tal só é obtido “através de um prolongado e intenso contacto com o campo ou situação de vida, observando situações banais ou normais, reflexo da vida diária dos indivíduos, grupos, sociedade e organizações”.

Também facilmente identificadas são as intervenções próximas da lógica da “sociologia da ação”, na perspectiva de Pierre Bourdieu (1980), que se opõem ao intelectualismo, ou seja, à observação do exterior, ao objetivismo, vendo apenas a ação concreta como objeto do conhecimento, num dado momento e sem perspetiva da sua dinâmica.

Neste aspeto, Rémy Hess (1985) vai ainda mais longe que Bordieu que prevê a possibilidade de participação ativa do investigador no contexto da ação, para defender a inevitabilidade de tal participação.

Embora algo desconhecidos, estes processos emergiram e desenvolveram-se nos anos noventa, nos Estados Unidos, por Luc Suchman (1990) e em França por Isaac Joseph (1994).

Quanto ao aspeto das metodologias empregues incluírem os próprios jovens como atores do seu próprio processo de transformação e subsequentemente os elegerem como avaliadores da sua própria transformação, este está legitimado pela opção da Etnometodologia como processo de intervenção. Neste aspeto, para Garfinkel, segundo Rémy Hess (1985), este método, que deverá ser utilizado pela Sociologia, não é só um recurso de investigação de especialistas, mas um assunto de todos e de todos os dias. Portanto, a “atividade sociológica profana” como é denominada por este autor, pode definir-se como a reflexão ativa dos membros de uma sociedade sobre as suas atividades sociais.

Para Becker (2002) a investigação não deve basear-se nem na confiança sobre a produção científica de um técnico, nem na confiança sobre o discurso dominante sobre um determinado grupo, mas sim adotar a perspetiva dos atores, tentando que os mesmos compreendam o sentido das suas práticas, interpretando as situações vividas por si.

Portanto, a intervenção quase diária com os jovens, a partilha da planificação das atividades e corresponde reflexão sobre as mesmas, a elaboração de fichas diagnóstico, de grelhas de avaliação do grau de satisfação dos destinatários, a adopção de processos de autoavaliação de aquisição de competências, bem como a recolha de imagens, de opiniões e de tantos outros materiais e seu tratamento posterior, permitem-nos reconhecer a proximidade das intervenções à etnometodologia e aos estudos naturalistas no âmbito da investigação social, cuja legitimidade não pode ser posta em causa por não seguir os contornos da investigação sociológica mais tradicional.

É neste contexto que faz todo o sentido a contribuição da Pedagogia Institucional na intervenção, que a “Questão de Equilíbrio” adotou desde 2000, consubstanciada, nomeadamente nos seguintes aspetos:

– Cintos de Competências: processo de auto-avaliação dos jovens sobre aquisição de competências pessoais e sociais;

– Assembleias Gerais de Jovens: processo de reflexão coletiva sobre os problemas quotidianos e a vida da instituição.

Brevemente será introduzido um outro aspecto da Pedagogia Institucional: Espaço da Palavra. Este espaço, destinado a um contacto mais pessoal do jovem com o(s) técnico(s), não irá substituir o acompanhamento individualizado que já hoje é garantido, antes o reforçará numa dimensão de “personalização” do mesmo.

Por outro lado, e através do Projeto Europeu ARPI, a “Questão de Equilíbrio” tem vindo a enriquecer, nos aspetos teóricos e na ação, a Pedagogia Institucional, com a introdução articulada nesta, das Actividades de Risco Controlado.

Assim nasceu o projeto ARPI (Atividades de Risco e Pedagogia Institucional) que desde Outubro de 2012 tem vindo a ser aplicado e testado em cinco países europeus (ver projetos).

Pretende-se que as aprendizagens decorrentes do desenvolvimento deste projeto, nomeadamente ao nível da metodologia, passem a ser aplicadas na intervenção pelas instituições parceiras do mesmo, incluindo o novo processo de elaboração dos PPP (Plano Personalizado de Progresso), com a adoção de fichas específicas e gestão partilhada das mesmas e do processo, pelos jovens acompanhados.

Ricardo Martínez

 

Ver:

  1. Cintos de Competências
  2. Guia de Actividades de Risco Controlado

 

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

BECKER, Howard S. (2002) Les ficelles du metier. Guides Repères. La decouvert, Syros.

BOURDIEU, Pierre (1980) Le sens pratique, Minuit. Paris

HESS, Rémy (1985) Revue Pratiquesde formation (analises), Etnométhodologies. Numero spécial 11-12. Université de Paris VIII.

RODRÍGUEZ, Gregório; GIL Flores; GARCÍA Eduardo (1996) Metodología de la investigación cualitativa, Ediciones Aljibe, Málaga.

STRECHT, Pedro (2003) À Margen do Amor, notas sobre delinquência juvenil, Assírio & Alvin, Lisboa.

 

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

AMANI, Colectivo (1994) Educación Intercultural. Análisis y resolución de conflitos. Escuela de Animacón Juvenil de la Comunidad de Madrid y Colectivo AMANI. Editorial Popular S.A., Madrid. P. 270.

ANDULI, Revista Andaluza de Ciências Sociais. (2010). Nº9. Universidad de Sevilla.pg.175.

ARRIETA, Lola; MORESCO, Marisa (1992) Educar desde el Conflito. Chicos que molestam. 2ª ed. Colec. Plan de Formacion de Anamadores. Bloque 4.20. Editorial CCS, Madrid. Pp. 18, 19.

ASSAILLY, Jean-Pascal (1992) Les Jeunes et Le Risque: Une approche psychologique de l´accident. Éditions Vigot, Paris. P.255.

AYUNTAMENT del PRAT de LLOBREGAT (2004) Innovación y Buenas Prácticas de Inserción Socio-Laboral. Informe Sant Cosme Innova, Programa Equal. Acción 3. AD-467. Barcelona.

BOUDON, Raymond Os Métodos em Sociologia. Colecção Prisma. Edições Rolim, Ldª, Lisboa.

BOURDIEU, Pierre (1978) “Sur l´objectivation participante”, Actes de la recherche en sciences sociales, nº 23, Septembre.

BUENO, Agustin: (1990) Ninõs de la calle. Cuadernos de Cristianismo y Justicia, nº33,. Barcelona 1990. P.7.

CASANOVA, R.; PESCE S. (2011) Pédagogues de l´extrême – L´éducabilité à l´épreuve du réel. Esf Éditeur. Moulineaux. – p.54 – 125 (QE)

CHOBEAUX, François (1990) “L´Escalade: Applications Pedagogiques, Educatives, Therapeutiques. Actes-1º Rencontre sur l´Escalade dans le Secteur Sanitaire et Social. Chamonix.

CORCUFF, Philippe Les nouvelles sociologies. Coll. 12, Nathan Université

DAMÁSIO, António (2003) Ao Encontro de Espinosa: As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir. Fórum da Ciência. Publicações Europa – América, Ldª. Mem Martins, M.Sintra. Portugal.

DEFRANCE, Michel (1990) Valeurs Educatives des Sports a Risques, Actes-1º Rencontre sur l´Escalade dans le Secteur Sanitaire et Social. Chamonix.

DERVAUX, Stéphane (2000) Traiter la déviance par le combat, Ed. Matrice, Maine et Loire

DUNNING, Eric (1992) A busca da excitação (prefacio). Memória e Sociedade. Viseu.

ELIAS, Norbert (1992) A Busca da Excitação. Memória e Sociedade. Viseu.

GARFINKEL, Harold (1967) Studies in Ethnomethodology, Englewoods Cliffs (N.J.), Pretince-Hall.

GLOWCZEWSKY, Barbara (1993) Adolescence et Risque. Syros. Paris, Pp.12-20.

GOYETTE, Gabriel; LESSARD-HÈRBERT, Michelle (1988) La Investigación-Acción. Funciones, Fundamentos e instrumentación. Colec. Pedagogia. Editorial Laertes. Barcelona, Pp.25, 29, 17, 18-19, 28, 151, 191-193, 78.

GRONERT, Jocham (1992) La calle como lugar de aprendizaje de un comportamiento antisocial. Infância y Sociedad nº18. Ministerio de Asuntos Sociales. Madrid, Pp.38-41.

KIRK/GALLAGHER. (1987) “Educação da Criança Excepcional”-Livraria Martins Fontes Editora Lda. – Dinalivro. São Paulo. Brasil. Pp. 4, 5, 320, 325, 330.

LAMORAL, Ph.; AEDES (1984) Desajustes sociales y problemas de conducta en la infancia y adolescencia. Prevención y terapia. Nuevos Horizontes. AEDES. Madrid.

LE BRETON, David (1991) Passions du risque. Éditions Métailié. Paris,. P.186.

MARTÍNEZ, Ricardo (2007) Marginación y Integración Social: Una experiencia a través del deporte de riesgo. Tese de Doutoramento. Departamento de Sociología. Universidad de Sevilla.

MATOS, Manuel Pires (1991) Tese de Doutoramento. Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. Universidade de Lisboa.

MUCCHIELLI, Roger (1979) Como eles se tornam delinquentes. Colecção Mundo Imediato 3. Moraes Editores. Lisboa,. P.19.

PAIN, Jacques (1999) La non-violence par la violence, une voie difficile, Matrice, Vigneux

PAIN, Jacques; HELLBRUNN, Richard (1986) Intégrer la violence, Matrice, Vigneux.

PENEFF, Jean (1990) La méthode biographique, Armand Colin, Paris.

PÉREZ, Berbardo Ortín (1992) Infancia en situación de riesgo: Sistemas de atención en Santiago de Chile. Infância y Sociedad nº19. Ministerio de Asuntos Sociales. Madrid.

REVISTA (1990) Dossier: Apprendre le Risque. Vers l’éducation nouvelle. Julho-Agosto. Paris.

ROCHER, Guy: (1979) Sociologia Geral-2. Editorial Presença, Ldª. Lisboa, Pp.12-42.

SALGUEIRO, Emílio (1990) Crianças Irrequietas. Dissertação de Doutoramento, Faculdade de Medicina de Lisboa. Pp.665, 668, 669, 663.

STRECHT, Pedro (1998) Crescer Vazio, Assírio & Alvin, Lisboa.

SUCHMAN, Luc (1990) Plan d´Action, Les formes de l´action, EHESS, coll. “Raisons pratiques”, Paris

TURSZ, Anne (1985) Adolescents, Risques et Accidents. Centre International de l´Enfance, Editeur. Paris.

ZANNA, Omar (2009) Des Maux du Corps pour solliciter l´Empathie – La douleur physique sportive éprouvée en commun, génératrice de communication: une médiation éducative à l´essai des mineurs de justice. Thèse de Doctorat. École doctorale Sciences Humaines et Sociales. Laboratoire de Cliniques Psychologiques, Pasychopathologie et Criminologie. Université Rennes 2.

[symple_box color=”green” text_align=”center” width=”48%” float=”left”]Cintos de Competências[/symple_box][symple_box color=”green” text_align=”center” width=”48%” float=”right”]Cintos de Competências 2[/symple_box]

[symple_box color=”green” text_align=”center” width=”48%” float=”left”]Cintos de Competências – quadro geral[/symple_box][symple_box color=”green” text_align=”center” width=”48%” float=”right”]Quadro de Direitos[/symple_box]

[symple_box color=”green” text_align=”center” width=”100%” float=”left”]Guia de Atividades de Risco[/symple_box]