História

Principalmente desde o início dos anos 90, o “efeito epidémico” da fuga de casa, de crianças e jovens na área urbana de Setúbal, aumentou o número de indivíduos, dos 8 aos 14 anos, a viverem sem abrigo, utilizando fábricas e armazéns degradados e abandonados junto ao cais, muitas vezes também ocupados por toxicodependentes.

A rede internacional de pedofilia passou a ter o trabalho facilitado, sabendo onde encontrar crianças e jovens vulneráveis, parte deles necessitando de dinheiro por se terem iniciado nas drogas ou porque a falta de amor-próprio e identidade pessoal exigia um consumismo incontrolado.

Conhecedores desta realidade e preocupados com a falta de respostas atempadas e adequadas, um pequeno grupo de técnicos da área da educação e do social entenderam intervir, em regime de voluntariado, durante o período da Feira de Santiago (entre Julho e Agosto de 1994), tentando reduzir algumas actividades delinquentes e simultaneamente controlar o aumento do número de crianças e jovens a viverem na rua.

Sem meios próprios e sem estruturas de retaguarda, sem uma instituição de suporte, o processo arrancou com o apoio o Governo Civil de Setúbal tendo como recursos disponíveis duas “tendas”, uma da Protecção Civil e outra da Base Aérea 6 do Montijo, onde foi possível guardar alguns materiais de animação e dar abrigo a mais de 30 crianças e jovens que entretanto trocaram as ruas e os armazéns em ruínas, onde pernoitavam, por este alojamento situado no “Largo da Feira”, Largo José Afonso.

A instalação das tendas, contígua à dos feirantes, preveniu os furtos contra os feirantes. As noites de prostituição ou de outras actividades marginais foram substituídas por animações organizadas e participadas pelos próprios jovens, bem como pela prática de “Actividades de Risco Controlado” (ver noutro local do site ARC), em particular a Escalada em Rocha.

Após quatro meses de intervenção, com a mudança evidente de comportamento dos 36 jovens entretanto envolvidos, e a falta de soluções adequadas, vimo-nos obrigados a criar uma associação que continuasse o trabalho iniciado, evitando que os jovens voltassem para instituições de onde anteriormente tinham fugido.

Após várias reuniões com os jovens, e por sugestão dos mesmos, decidiu-se criar uma associação e designá-la por “Questão de Equilíbrio”.

Com a criação desta associação em Novembro de 1994, foram estudadas as formas possíveis de reentrada dos jovens nas suas respectivas famílias, sendo estas acompanhadas por técnicos da área da reinserção.

Nos casos desaconselhados de regresso imediato ao convívio familiar, por motivos de insegurança, uso de violência ou desorganização grave do agregado, foi encontrada uma solução provisória que passou primeiro pela instalação em tendas no Parque de Campismo Municipal e posteriormente pelo internamento no “Lar da Terroa”, situado em instalações cedidas pelo Instituto de Habitação.

No início de 1995, o Centro Regional de Segurança Social de Setúbal disponibilizou um espaço, anterior creche, não utilizada pelos seus serviços, no centro de Setúbal, onde se instalou o Atelier de Tempos Livres, no qual se passaram a desenvolver actividades formativas, nomeadamente ao nível do trabalho de competências sociais e pessoais.

Dez anos depois da sua criação e legalização, a “Questão de Equilíbrio” multiplicou as suas valências, passando a atender crianças e jovens enviados pelos serviços de Justiça, nomeadamente o Tribunal de Menores e Família e pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens; jovens com problemas crónicos de insucesso e de abandono escolar, sinalizados pelos serviços de educação; famílias problemáticas e sem meios de subsistência; indivíduos com problemas de toxicodependência acompanhados pelos Centros de Atendimento a Toxicodependentes (CAT); ex-reclusos sinalizados pelo Instituto de Reinserção Social; pessoas cronicamente desempregadas enviadas pelos Centros de Formação / Instituto de Emprego e Formação Profissional, num total que ultrapassou as 460 pessoas apoiadas e orientadas/acompanhadas.